"Quem quer ter ilhas, paga-as", disse o inenarrável Jaime Ramos da Madeira. Eu só quero saber se me vão perguntar alguma coisa ou se deram por adquirido que eu quero ter ilhas ...
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terça-feira, março 04, 2008
sexta-feira, fevereiro 29, 2008
(2336) O ESTADO DA NAÇÃO (1): A CRISE
Muitos milhões de euros de fundos comunitários depois de 1986, Portugal continua com índices vergonhosos de pobreza adulta e de pobreza infantil. Continua com um défice de produtividade das suas empresas que compromete a competitividade e a empregabilidade da economia. Continua com uma população jovem deficientemente preparada pelas escolas para enfrentar o mundo real.
Esta semana vimos um alto responsável universitário contestar que os cursos superiores sejam avaliados pela sua empregabilidade, alegando até que há cursos muito bons que têm pouca empregabilidade. Esquecendo que vive num país com recursos escassos que tem de definir prioridades.
A chamada crise social tem sido disfarçada à custa do assistencialismo público e do meritório esforço de uma miríade de instituições de solidariedade social. Portugal continua um país pobre, porque não teve sucesso na maior riqueza que tem: as pessoas. Sem riquezas naturais como ouro ou petróleo, sem colónias, resta enfrentarmo-nos a nós próprios.
Mas não é fácil vermo-nos ao espelho. A imagem não é boa nem bonita. Como sociedade fraca que somos estamos sempre à espera que o Estado ou alguém por nós resolva o que depende em primeira instância de nós próprios. Não queremos trabalhar mais e não admitimos ganhar menos. Culpamos sempre os outros, o célebre “eles” dos males do mundo.
É importante dizer a bem da verdade que existe uma parte da pobreza que não o é. Há quem prefira os subsídios da segurança social e os biscates ocasionais ao trabalho efectivo. Temos engenheiros, professores universitários e pessoas altamente formadas e preparadas de nacionalidade russa e ucraniana a trabalhar como jardineiros, por exemplo, porque não há portugueses que estejam dispostos a sujar as unhas. Há muitos à procura de emprego e poucos dispostos a ter trabalho. O Estado alimenta esta preguiça parasitária chamando-lhe “políticas sociais”.
Esta situação exige novas ideias e o abandono de preconceitos ideológicos politicamente correctos.
Não é isso que está a acontecer. O país continua adiado, com as instituições públicas atoladas em dívidas, a começar no Estado e a acabar nas autarquias. Dívidas que vão disfarçando com novas dívidas e não resolvendo com os necessários cortes na despesa. As eleições comprometem a verdade. Ganham-se com dinheiro e não com poupança. O Governo já começou a recuar nalgumas tímidas reformas que tentou encetar. Na saúde, na educação, na suave dilatação da despesa. Reproduzindo o modelo que nos conduziu à situação presente.
A SEDES, histórico alfobre da elite de governantes do bloco central, com sucessivas responsabilidades governativas, veio dizer o que todos sentem. O que espanta é ter sido considerado uma novidade o alerta sobre a crise social do país. E a ausência de autocrítica. Mas é assim Portugal. Os mesmos sempre a dizer o mesmo dos mesmos. Talvez por isso o povo, cansado da fatalidade, responda com perigosa e crescente indiferença aos alertas, às críticas e aos problemas.
Esta semana vimos um alto responsável universitário contestar que os cursos superiores sejam avaliados pela sua empregabilidade, alegando até que há cursos muito bons que têm pouca empregabilidade. Esquecendo que vive num país com recursos escassos que tem de definir prioridades.
A chamada crise social tem sido disfarçada à custa do assistencialismo público e do meritório esforço de uma miríade de instituições de solidariedade social. Portugal continua um país pobre, porque não teve sucesso na maior riqueza que tem: as pessoas. Sem riquezas naturais como ouro ou petróleo, sem colónias, resta enfrentarmo-nos a nós próprios.
Mas não é fácil vermo-nos ao espelho. A imagem não é boa nem bonita. Como sociedade fraca que somos estamos sempre à espera que o Estado ou alguém por nós resolva o que depende em primeira instância de nós próprios. Não queremos trabalhar mais e não admitimos ganhar menos. Culpamos sempre os outros, o célebre “eles” dos males do mundo.
É importante dizer a bem da verdade que existe uma parte da pobreza que não o é. Há quem prefira os subsídios da segurança social e os biscates ocasionais ao trabalho efectivo. Temos engenheiros, professores universitários e pessoas altamente formadas e preparadas de nacionalidade russa e ucraniana a trabalhar como jardineiros, por exemplo, porque não há portugueses que estejam dispostos a sujar as unhas. Há muitos à procura de emprego e poucos dispostos a ter trabalho. O Estado alimenta esta preguiça parasitária chamando-lhe “políticas sociais”.
Esta situação exige novas ideias e o abandono de preconceitos ideológicos politicamente correctos.
Não é isso que está a acontecer. O país continua adiado, com as instituições públicas atoladas em dívidas, a começar no Estado e a acabar nas autarquias. Dívidas que vão disfarçando com novas dívidas e não resolvendo com os necessários cortes na despesa. As eleições comprometem a verdade. Ganham-se com dinheiro e não com poupança. O Governo já começou a recuar nalgumas tímidas reformas que tentou encetar. Na saúde, na educação, na suave dilatação da despesa. Reproduzindo o modelo que nos conduziu à situação presente.
A SEDES, histórico alfobre da elite de governantes do bloco central, com sucessivas responsabilidades governativas, veio dizer o que todos sentem. O que espanta é ter sido considerado uma novidade o alerta sobre a crise social do país. E a ausência de autocrítica. Mas é assim Portugal. Os mesmos sempre a dizer o mesmo dos mesmos. Talvez por isso o povo, cansado da fatalidade, responda com perigosa e crescente indiferença aos alertas, às críticas e aos problemas.
(publicado na edição de hoje do Diário de Aveiro)
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sábado, fevereiro 23, 2008
(2304) PARA DESANUVIAR
O ambiente está pesado, demasiado pesado, no país e no mundo. Não, não é só a SEDES, não é só o que se sabe, mas sobretudo o que não se sabe (ainda?) que está a tornar o ar de Portugal literalmente irrespirável. Para desanuviar aqui fica um link útil. Telegramas em chocolate. Estou cá a pensar se não vou enviar alguns a algumas pessoas que andam por aí. Já tínhamos telegramas telefonados, que caíram em desuso com os sms's. Já tínhamos telegramas em papel, via CTT, que caíram em desuso com os sms's. Estes telegramas em chocolate têm a vantagem de resistir aos sms's e de serem comestíveis. Até ao dia em que inventarem telemóveis com sabores.
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terça-feira, fevereiro 19, 2008
(2269) NEM EU
"Eu, português, 43 anos, sobrevivente a recibos verdes, que todos os meses pago 200 euros de segurança social para viver na maior das inseguranças, que senti a minha qualidade de vida baixar consecutivamente nos últimos anos, não consigo ver o país como o primeiro-ministro José Sócrates vê."
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domingo, janeiro 06, 2008
(1988) UM PAÍS, DOIS SISTEMAS
3 milhões de carros fantasmas. Uns centos de milhar de eleitores fantasmas. Um terço do PIB de economia paralela. Um terço de criminalidade fantasma não denunciada. Um país, dois sistemas. Francamente, da maneira que isto anda não sei em que país se viverá melhor, se no Portugal oficial, se no Portugal fantasma.
sexta-feira, janeiro 04, 2008
(1972) ESTÁ A DOER
O regresso à Terra de José Sócrates está a doer. Apesar da mitomania da mensagem de Natal, o Primeiro-Ministro deve estar agora a concluir que o povo não partilha das suas façanhas eurocráticas, nem está disposto a verter uma lágrima, como José Sócrates verteu, pelo notariado exercido na assinatura do Tratado de Lisboa. É caso para dizer, diz-me com o que te emocionas, dir-te-ei quem és.
O povo é mais comezinho. A fumar ao frio e à chuva, com urgências a fechar, mais desemprego, preços a aumentar e o empobrecimento geral a toldar os espíritos mais optimistas, veio juntar-se agora a recomendação de Ferro Rodrigues: “menos arrogância”. Duvido que alguém no PS oiça a recomendação, apesar de modesta (“menos”, ou seja, para Ferro é admissível alguma arrogância, mas não em excesso). O PS está fascinado. E o país, desmoralizado.
O povo é mais comezinho. A fumar ao frio e à chuva, com urgências a fechar, mais desemprego, preços a aumentar e o empobrecimento geral a toldar os espíritos mais optimistas, veio juntar-se agora a recomendação de Ferro Rodrigues: “menos arrogância”. Duvido que alguém no PS oiça a recomendação, apesar de modesta (“menos”, ou seja, para Ferro é admissível alguma arrogância, mas não em excesso). O PS está fascinado. E o país, desmoralizado.
(publicado na edição de hoje do Democracia Liberal)
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sexta-feira, dezembro 28, 2007
(1933) FELICIDADE NACIONAL
É de bom tom fazer balanços quando se aproxima o fim do ano. Este ano é relativamente fácil proceder ao exercício. E que bem sabe escrever para dizer bem. Passamos os dias a criticar, a zurzir, a lamentar, a crucificar as desditas do destino, por vezes julgávamos até que a divina imprudência nos tinha reservado uma safra dos piores para tratar dos nossos assuntos. Até que chega o dia. O tão esperado e ansiado dia em que podemos escrever bem.
Em 2007 o desemprego baixou. Sim, não se admirem. José Sócrates prometeu e cumpriu. Cada vez menos portugueses precisam de receber subsídio de desemprego. Cada vez mais portugueses trabalham, contribuindo para aumentar a produtividade e a riqueza nacional. É por isso que os portugueses andaram mais contentes, contagiando o clima social do país.
Em 2007 foi possível baixar os impostos, aumentando o rendimento disponível das famílias e das empresas, libertando recursos para o consumo, o que pressiona a produção de bens e serviços e para o investimento, o que tem permitido aumentar postos de trabalho e as exportações. José Sócrates, que prometeu não aumentar os impostos, excedeu-se e até os baixou! Como deve estar feliz por ter desrespeitado uma promessa eleitoral para mais e não para menos.
As empresas diminuíram os custos com a burocracia e podem hoje decidir e agir mais rápido, em função da economia e não em dependência da administração. Para fazer grandes negócios e escolher administradores já não é preciso esperar pela opinião do ministro das Finanças, nem pela indicação do gabinete do Primeiro-Ministro.
Os trabalhadores, salvo algumas ovelhas ranhosas, as do costume, decidiram trabalhar mais e produzir melhor para contribuírem para o esforço nacional de recuperação da economia, tendo finalmente percebido que só é possível distribuir mais riqueza se se produzir mais.
Em 2007 o Estado reduziu a despesa corrente, extinguiu serviços inúteis, aumentou a eficácia dos serviços úteis, como por exemplo nas áreas da Justiça e da segurança. Reduziu-se o tempo de espera dos processos em tribunal, investiga-se a criminalidade mais rápido, diminuíram os homicídios, os gangs e as máquinas multibanco dormem mais seguras durante a noite.
Em 2007 as autarquias deram o exemplo, gastando menos, reduzindo as suas dívidas, extinguindo empregos políticos e extinguindo empresas municipais.
Em 2007 os políticos honraram as promessas feitas nas campanhas eleitorais. O PS vai propor o referendo ao Tratado de Lisboa, o PSD continua fiel à promessa de realizar o referendo, e ambos os partidos decidiram empreender um programa de despartidarização da administração pública e das empresas do Estado. Pela primeira vez na história o Presidente da Caixa de Depósitos não tem partido e nenhum dos seus administradores é filiado em nenhum partido. Até no CDS se abandonaram as golpalhadas. Paulo Portas foi leal aos princípios e aos mandatos e aguarda democrática, civilizada e educadamente o fim do mandato de Ribeiro e Castro para se candidatar outra vez. Sem agressões, gritos, empurrões.
O Governo deu o exemplo, deixando o mercado funcionar e foi possível assistir a OPA’s vitoriosas sobre a PT, por exemplo.
Na Educação, o balanço é extraordinário. Os alunos falam e escrevem melhor o português, já não é preciso o célebre despacho da ministra a permitir passagens administrativas para garantir as estatísticas do sucesso.
O que se passou no país este ano teve, aliás, total correspondência em Aveiro. Resolveram-se problemas, saldaram-se dívidas, todos estão de parabéns. A notícia de que Élio Maia terá anunciado na sessão de ontem da Assembleia Municipal que a dívida da Câmara a curto prazo aumentou 6,4 milhões de euros não passa seguramente de uma brincadeira de Carnaval, que, como todos sabem, vem logo a seguir ao Natal. Sentido de humor não falta, felizmente, ao Presidente da Câmara. As 29 medidas anunciadas em Junho para resolver o problema financeiro da Câmara foram de uma eficácia notável. Talvez por isso, estão na forja mais 29. A este ritmo, ninguém pára Aveiro.
É assim, com gosto e prazer que escrevo este último artigo do ano para o Diário de Aveiro. Compreenderão certamente os leitores que este ano já não é necessário desejar um próspero Ano Novo a ninguém. Ele será próspero. Como é evidente.
Em 2007 o desemprego baixou. Sim, não se admirem. José Sócrates prometeu e cumpriu. Cada vez menos portugueses precisam de receber subsídio de desemprego. Cada vez mais portugueses trabalham, contribuindo para aumentar a produtividade e a riqueza nacional. É por isso que os portugueses andaram mais contentes, contagiando o clima social do país.
Em 2007 foi possível baixar os impostos, aumentando o rendimento disponível das famílias e das empresas, libertando recursos para o consumo, o que pressiona a produção de bens e serviços e para o investimento, o que tem permitido aumentar postos de trabalho e as exportações. José Sócrates, que prometeu não aumentar os impostos, excedeu-se e até os baixou! Como deve estar feliz por ter desrespeitado uma promessa eleitoral para mais e não para menos.
As empresas diminuíram os custos com a burocracia e podem hoje decidir e agir mais rápido, em função da economia e não em dependência da administração. Para fazer grandes negócios e escolher administradores já não é preciso esperar pela opinião do ministro das Finanças, nem pela indicação do gabinete do Primeiro-Ministro.
Os trabalhadores, salvo algumas ovelhas ranhosas, as do costume, decidiram trabalhar mais e produzir melhor para contribuírem para o esforço nacional de recuperação da economia, tendo finalmente percebido que só é possível distribuir mais riqueza se se produzir mais.
Em 2007 o Estado reduziu a despesa corrente, extinguiu serviços inúteis, aumentou a eficácia dos serviços úteis, como por exemplo nas áreas da Justiça e da segurança. Reduziu-se o tempo de espera dos processos em tribunal, investiga-se a criminalidade mais rápido, diminuíram os homicídios, os gangs e as máquinas multibanco dormem mais seguras durante a noite.
Em 2007 as autarquias deram o exemplo, gastando menos, reduzindo as suas dívidas, extinguindo empregos políticos e extinguindo empresas municipais.
Em 2007 os políticos honraram as promessas feitas nas campanhas eleitorais. O PS vai propor o referendo ao Tratado de Lisboa, o PSD continua fiel à promessa de realizar o referendo, e ambos os partidos decidiram empreender um programa de despartidarização da administração pública e das empresas do Estado. Pela primeira vez na história o Presidente da Caixa de Depósitos não tem partido e nenhum dos seus administradores é filiado em nenhum partido. Até no CDS se abandonaram as golpalhadas. Paulo Portas foi leal aos princípios e aos mandatos e aguarda democrática, civilizada e educadamente o fim do mandato de Ribeiro e Castro para se candidatar outra vez. Sem agressões, gritos, empurrões.
O Governo deu o exemplo, deixando o mercado funcionar e foi possível assistir a OPA’s vitoriosas sobre a PT, por exemplo.
Na Educação, o balanço é extraordinário. Os alunos falam e escrevem melhor o português, já não é preciso o célebre despacho da ministra a permitir passagens administrativas para garantir as estatísticas do sucesso.
O que se passou no país este ano teve, aliás, total correspondência em Aveiro. Resolveram-se problemas, saldaram-se dívidas, todos estão de parabéns. A notícia de que Élio Maia terá anunciado na sessão de ontem da Assembleia Municipal que a dívida da Câmara a curto prazo aumentou 6,4 milhões de euros não passa seguramente de uma brincadeira de Carnaval, que, como todos sabem, vem logo a seguir ao Natal. Sentido de humor não falta, felizmente, ao Presidente da Câmara. As 29 medidas anunciadas em Junho para resolver o problema financeiro da Câmara foram de uma eficácia notável. Talvez por isso, estão na forja mais 29. A este ritmo, ninguém pára Aveiro.
É assim, com gosto e prazer que escrevo este último artigo do ano para o Diário de Aveiro. Compreenderão certamente os leitores que este ano já não é necessário desejar um próspero Ano Novo a ninguém. Ele será próspero. Como é evidente.
(publicado na edição de hoje do Diário de Aveiro)
sexta-feira, dezembro 07, 2007
(1823) NO PAÍS DA QUADRILHICE
Portugal deve ser o país do mundo onde mais se investiga. Todos os dias a comunicação social nos informa de que uma multiplicidade de entidades públicas se dedicam ao meritório esforço de investigar. Investigam-se empresas, cidadãos, negócios. Um sortido de polícias, instituições, reguladores, fiscais, dedicam-se a saber da vida alheia no sentido de zelar pelo cumprimento da legalidade, aliás, neste momento uma espécie de ciência oculta quase indecifrável para os técnicos do Direito, quanto mais para o cidadão comum, dada a profusão de leis, rectificações, correcções, versões com que o Estado brinca aos legisladores.
Exemplos não faltam todos os dias. Sobreiros, submarinos, financiamento de partidos, jogadas na bolsa de valores, furacões, apitos de cores várias, bancos, restaurantes, feiras, negócios, autarquias, gangs, máfias, mafiazinhas e mafiazonas, terroristas, bombistas nocturnos, carjackers, os próprios polícias, tudo em Portugal é passado a pente fino. Para o ano, também os fumadores.
Mas os investigadores são imparáveis. Querem sempre investigar mais. Por isso, até os serviços de informações querem agora poder fazer escutas por causa do terrorismo (dizem eles, embora eu não esteja muito convencido que o Alqaedistão passe por aqui). Os investigadores transformam-se perversamente em glutões investigatórios. A investigação é uma espiral patológica de necessidades.
Ora, com isto, gasta a República incontáveis milhões, que saiem de onde, adivinhem os leitores?... Pois claro, do orçamento do Estado! E o dinheirinho do orçamento, vem de onde, adivinhem os leitores? Pois claro, do nosso bolso. A Nação trabalha afanosamente na ilusão de que está a contribuir para o cumprimento da lei, pagando as logísticas e os ordenados de um exército de investigadores. São cidadãos, como todos os outros, a quem pagam para vasculhar a vida alheia. E que precisam de computadores, de papel, de canetas, de ar condicionado, de casas com telhado, de gabinetes, de carros, de colegas, de testemunhas.
Aqui chegados, cumpre perguntar: e então os resultados? Sim, os resultados? De tanta energia deve haver algum resultado concreto. Pois. O problema é que o Estado não tem capacidade para atingir os resultados. Os milhares de coimas por pagar, os milhares de processos instruídos pela ASAE a que o Ministério Público não consegue dar resposta, as milhares de impugnações judiciais a que os Tribunais reservam as gavetas da Sra. D. Morosidade Judicial de Portugal (por favor, não vão à lista telefónica, que a morada e o respectivo número são pagos pelo Estado e, naturalmente, confidenciais).
Resta então o quê? A quadrilhice. Desde logo a quadrilhice jornalística, comercialmente bombástica, mas na prática inconsequente. Depois, a quadrilhice do boca-a-boca, a boataria, um desporto popular gratuito que é de borla e ajuda a passar o tempo.
Resultados é que não há. Chama-se a este fenómeno impunidade e a impunidade é o vírus da legalidade. É assim que vivemos e nada me garante que não é assim que como povo sábio seja assim que nos sentamos e nos sentimos felizes para sempre. Nunca nenhuma lei proibiu os chico-espertos. É por isso que os encontramos nas estradas, nas repartições, nas lojas e até como deputados. Abençoado país.
Exemplos não faltam todos os dias. Sobreiros, submarinos, financiamento de partidos, jogadas na bolsa de valores, furacões, apitos de cores várias, bancos, restaurantes, feiras, negócios, autarquias, gangs, máfias, mafiazinhas e mafiazonas, terroristas, bombistas nocturnos, carjackers, os próprios polícias, tudo em Portugal é passado a pente fino. Para o ano, também os fumadores.
Mas os investigadores são imparáveis. Querem sempre investigar mais. Por isso, até os serviços de informações querem agora poder fazer escutas por causa do terrorismo (dizem eles, embora eu não esteja muito convencido que o Alqaedistão passe por aqui). Os investigadores transformam-se perversamente em glutões investigatórios. A investigação é uma espiral patológica de necessidades.
Ora, com isto, gasta a República incontáveis milhões, que saiem de onde, adivinhem os leitores?... Pois claro, do orçamento do Estado! E o dinheirinho do orçamento, vem de onde, adivinhem os leitores? Pois claro, do nosso bolso. A Nação trabalha afanosamente na ilusão de que está a contribuir para o cumprimento da lei, pagando as logísticas e os ordenados de um exército de investigadores. São cidadãos, como todos os outros, a quem pagam para vasculhar a vida alheia. E que precisam de computadores, de papel, de canetas, de ar condicionado, de casas com telhado, de gabinetes, de carros, de colegas, de testemunhas.
Aqui chegados, cumpre perguntar: e então os resultados? Sim, os resultados? De tanta energia deve haver algum resultado concreto. Pois. O problema é que o Estado não tem capacidade para atingir os resultados. Os milhares de coimas por pagar, os milhares de processos instruídos pela ASAE a que o Ministério Público não consegue dar resposta, as milhares de impugnações judiciais a que os Tribunais reservam as gavetas da Sra. D. Morosidade Judicial de Portugal (por favor, não vão à lista telefónica, que a morada e o respectivo número são pagos pelo Estado e, naturalmente, confidenciais).
Resta então o quê? A quadrilhice. Desde logo a quadrilhice jornalística, comercialmente bombástica, mas na prática inconsequente. Depois, a quadrilhice do boca-a-boca, a boataria, um desporto popular gratuito que é de borla e ajuda a passar o tempo.
Resultados é que não há. Chama-se a este fenómeno impunidade e a impunidade é o vírus da legalidade. É assim que vivemos e nada me garante que não é assim que como povo sábio seja assim que nos sentamos e nos sentimos felizes para sempre. Nunca nenhuma lei proibiu os chico-espertos. É por isso que os encontramos nas estradas, nas repartições, nas lojas e até como deputados. Abençoado país.
(publicado na edição de hoje do Diário de Aveiro)
sábado, dezembro 01, 2007
quinta-feira, novembro 29, 2007
(1972) O DEVER DA VERDADE
(Ficha do livro)" ... o nosso sistema dito semipresidencialista é inadequado ás circunstâncias do tempo português, porque não assegura a continuidade das políticas nem responsabiliza os seus principais agentes; que temos uma economia cada vez mais debilitada e incapaz de suportar o peso do Estado, que se transformou numa espécie de asilo da Nação; que a importância relativa dos nossos gastos públicos nos arruinará no espaço de uma década se não forem reformadas, com urgência e nomeadamente, as políticas de remuneração do pessoal público e das prestações sociais, com saliência para a Educação, a Saúde, a Segurança Social e a Caixa Geral de Aposentações; que mantemos um sistema fiscal pesado, iníquo, instável e inutilmente complicado, cuja produção global de receitas excedeu já os limites convenientes: que os sistemas de ensino, de formação e de justiça são um autêntico desastre, ao serviço do nosso atraso; que os principais partidos políticos estão cada vez mais desacreditados e são meros instrumentos de clientelas, de amigos obedientes e de interesses muitas vezes pouco claros; que os partidos políticos não cumprem as leis que eles próprios criam; prometem o que sabem não cumprirão, criticam na oposição o que fazem no Governo e desculpam-se neste daquilo que é indesculpável não conhecer; que a Administração Pública é demasiado burocratizada e quase sempre nociva ao desenvolvimento; que o Estado, noutros tempos intervencionista, perdeu todos os instrumentos de que se servia e não pode agir nas economias abertas e insinuar práticas keynesianas sem sentido e sem alcance; que a social-semocracia, que todos os partidos parlamentares substantivamente defendem, foi produto da prosperidade económica ora desaparecida e se encontra esgotada pela globalização".
Medina Carreira
Não surpreende que não se fale muito deste livro. Ao sistema não convém exibir a sua nudez.
quinta-feira, outubro 18, 2007
(1800) ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS
Ainda foi ontem que se desarmaram os toldos das praias. A noite está quente, lembrando as noites de Verão. Hoje já se vende bolo-rei em Lisboa.
sábado, outubro 13, 2007
(1778) NOVIDADES
Podia falar do Congresso do PSD, da nova Basílica de Fátima, do discurso do Cardeal Bertone, ainda e sempre do Orçamento de Estado, de Catalina Pestana. E de muitas outras coisas. Aparentam novidade. São a actualidade do fim de semana. O que é diferente de serem novidades. Aliás, este tempo que vivemos de obsessão com as novidades, é perigoso. O mundo está velho, muito velho e demasiado igual ao que sempre foi, para celebrar aparentes novidades. E a actualidade, por vezes, cansa. Foi o que me aconteceu este fim de semana. Não me apetece a actualidade. Talvez porque não seja, precisamente, novidade. Isto passa.
quinta-feira, outubro 11, 2007
(1768) SOCIALISMOS MELHORES
(É perto e dá para vir a casa ao fim de semana)Já há 400 empresas portuguesas em Espanha, responsáveis por 21.000 postos de trabalho. A Espanha já é o segundo país europeu com mais portugueses a seguir à mítica França. Em Espanha é tudo mais barato por causa do IVA, destacando-se os combustíveis e a restauração. Os portugueses são obedientes. No início do seu mandato Sócrates mandou o pessoal todo para Espanha. Parece que está a acontecer. O último a sair que apague a luz a feche a porta.
sexta-feira, outubro 05, 2007
(1740) INDEPENDENCIA NACIONAL
O Tratado de Zamora foi o resultado da conferência de paz entre Afonso Henriques e o rei Afonso VII de Castela e Leão, a 5 de Outubro de 1143, e é a data da independência de Portugal e o início da dinastia afonsina. Em Zamora, revogou-se o anterior Tratado de Tui, de 1137. É uma bizarria institucional, uma omissão política injustificável, que Portugal não comemore solenemente a data da independencia nacional. Não conheço país digno desse nome que não o faça. Quererá Cavaco Silva pegar no assunto?
quinta-feira, setembro 13, 2007
(1608) NA LUTA LIVRE É QUE TÍNHAMOS MEDALHAS
O jogador da selecção portuguesa de râguebi Juan Severino Somoza, que participa no mundial em França, foi suspenso durante quatro semanas por ter agredido com uma cabeçada adversário escocês no confronto entre os dois países no domingo passado, anunciou hoje a comissão de disciplina do Campeonato do Mundo de Râguebi. Murros, cabeçadas, pontapés. Que triste imagem o desporto português dá de Portugal. E, o mais grave, é que são as selecções nacionais que o fazem. Será porque nos clubes já há poucos portugueses? Seja como fôr aqui fica uma sugestão: se nos concentrarmos na luta livre acho que somos fortes candidatos a medalhas nos Jogos Olimpicos.
(1604) HÁ MAIS PORTUGAL PARA LÁ DA TELEVISÃO...
"O que aconteceu no relvado de Alvalade já sucedeu em sessões de conselhos científicos de universidades entre doutíssimos catedráticos, quando ainda não havia a hipótese de recurso a jagunços blogosféricos. A facilidade com que se passa de bestial a besta, ou de engraxado a punido, é facilmente demonstrada pela facilidade com que agora se analisam as volutas cerebrais dos McCann, neste ambiente de “voyeurismo” ".
José Adelino Maltez, no Sobre O Tempo Que Passa.
quarta-feira, agosto 29, 2007
(1507) LEITURA ACONSELHADA
( O Zapping também o leu)"... entretanto a opinião pública já se tinha aborrecido e tornado céptica. Quase quatro anos haviam passado sobre as fantásticas revelações de LeopoldoNotarbartolo em Milão. O processo desencadeara no início um enorme debate público sobre a mafia. Foram publicados alguns relatos preciosos, incluindo dois de polícias sicilianos. No entanto, por cada estudo útil da famosa organização criminosa, surgiam dois ou três que ajudavam a confundir a questão."
Um dos livros que me decidi a ler nestas férias foi este. Em Portugal foi publicado pelas Edições 70 e para quem quiser saber tudo o que é possível saber sobre a Mafia siciliana a leitura é obrigatória. Desde os primórdios, à sombra da produção de citrinos nos arredores de Palermo, em meados do século XIX, até às confissões históricas de Buscetta e ao homicídio de Falcone, passando pelo boom da construção civil em Palermo, a exportação do modelo para a América do início do século XX, pelas perseguições do fascismo italiano e pela contaminação da Democracia Cristã italiana.
Descontadas as devidas proporções, fui-me apercebendo como em Portugal, por certos episódios ocorridos nos mais variados sectores da vida nacional, é possível detectar comportamentos e técnicas em que a Cosa Nostra foi pioneira. No futebol, através da desacreditação de testemunhas. Na política através da invocação da honorabilitá de suspeitos de corrupção, na indústria da noite através de sangrentos ajustes de contas à americana, muito mais que à corleonese.
Falta-nos é Falcone.
quinta-feira, julho 26, 2007
(1395) UM PAÍS, DOIS SISTEMAS
Portugal decidiu copiar a China. Este país, como sabemos, ainda se diz comunista mas convive amável e cumplicemente com o capitalismo, que procura e deseja, para desenvolver a sua economia. Em Hong Kong e em Macau, ninguém sabe do comunismo. É o conhecido método “um país, dois sistemas”.
Cá, vivemos hoje no mesmo no regime. Há o país da rua, do desemprego, da escola, e há o país de Sócrates. No primeiro existe pessimismo e dificuldades. No segundo só existem maravilhas, para lá, é claro, do sucesso no combate às cáries dentárias, que é o orgulho do Primeiro-Ministro.
"Saímos daqui com vontade de comprar uma casa." Foi desta forma que o Primeiro-Ministro se referiu às vantagens do "Casa Pronta", o novo balcão único onde se pode tratar dos vários procedimentos inerentes à compra e venda de casa, como a assinatura da escritura pública ou pedir a caderneta predial. Pois será. O problema no tal país que Sócrates ignora do alto das cataratas de propaganda onde se atola, mas que existe, não é falta de vontade para comprar casa. É a falta de dinheiro.
Cá, vivemos hoje no mesmo no regime. Há o país da rua, do desemprego, da escola, e há o país de Sócrates. No primeiro existe pessimismo e dificuldades. No segundo só existem maravilhas, para lá, é claro, do sucesso no combate às cáries dentárias, que é o orgulho do Primeiro-Ministro.
"Saímos daqui com vontade de comprar uma casa." Foi desta forma que o Primeiro-Ministro se referiu às vantagens do "Casa Pronta", o novo balcão único onde se pode tratar dos vários procedimentos inerentes à compra e venda de casa, como a assinatura da escritura pública ou pedir a caderneta predial. Pois será. O problema no tal país que Sócrates ignora do alto das cataratas de propaganda onde se atola, mas que existe, não é falta de vontade para comprar casa. É a falta de dinheiro.
(publicado na edição de hoje do Democracia Liberal)
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quarta-feira, julho 18, 2007
(1335) PAÍS VERDADEIRO
Nada melhor do que uma Volta a Portugal em Tribunal para levar banhos de realidade. Da realidade das pessoas. Da realidade do Estado. Da realidade do país.
terça-feira, julho 10, 2007
(1290) PORTUGAL MEDÍOCRE
Há quem atribua o nosso atraso à pequenez das nossas elites. Elas são propulsoras de maus exemplos cívicos. Por vezes, as elites até escrevem bem, acertam na sintaxe, possuem vocubulário. Ostentam conhecimentos raros, que brilham no meio da indigência quotidiana dos portugueses comuns. Cai bem lutar por Aristides Sousa Mendes, que o comum do cidadão não conhece e os que conhecem, conhecem apenas a parte que lhes deixam conhecer (não há História perfeita, não há...). Exibem até curriculuns profissionais brilhantes nas respectivas áreas de formação. Uns fizeram pontes, outros são artistas, além foram projectistas, estrategos, arquitectos. Outros ainda são advogados, outrora apenas da escola de Coimbra, hoje democratizada por todo o território nacional, numa distribuição socialisticamente correcta da mesquinhez e da pequenez em que sempre viveu a nossa Universidade, educada na reverência balofa aos poderes. Mas elas têm uma vulnerabilidade: o amor ao penacho, a rendição ao tacho, a cedência à mordomia, que normalmente é sinónimo de motorista pago pelo Estado, secretária para atender telefones e um gabinete. Ah!, o gabinete! Um extâse de importância, um sinal distintivo de superioridade perante quem tem um mero escritório ou, mais rasca ainda, quem se limita, oh! cúmulo da rasquice, a simplesmente trabalhar na empresa. Ele são Alto-Comissários, ele são Alto-Qualquer Coisa, desde que venha no pacote a Excelência, o Dr., o Engenheiro (ai os diplomas, que loucura social de mercado!). Etc. e tal. Além desta vulnerabilidade as elites têm outra: a ganância. Nunca se contentam. Querem sempre mais. Nem que seja um part time. Pular num modesto mês do Tribunal Constitucional para o ministério, daria romance imortal em Eça. Agora, convenhamos, tratar da frente ribeirinha de Lisboa e, em simultaneo, ter de suportar o mandatarinato eleitoral de António Costa, ou de outro qualquer, nem romance de cordel do século XIX justificaria. É feio, mas pouco para merecer papel e mais verbo.
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