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sexta-feira, março 14, 2008

(2426) A TIRANIA DA IMAGEM

Anos depois de o PS passar de vermelho a rosa, o PSD sobrepôs o azul ao laranja. Depois de o PS ter substituído o punho pela rosa, o PSD tira duas das suas três setas ao emblema. Não se trata de acasos. O rígido PCP arranjou, a seu tempo, maneira de se encafuar numa CDU que vestiu de azul, arrumando o vermelho para debaixo dos móveis eleitorais. São tentativas de mudanças de identidades sem correspondência na verdade política que cada um representa. Mas que visam atrair os eleitores apesar dos significados reais que os partidos transportam das fundações, das doutrinas e das histórias. Acabo de ver Sócrates prestar-se a uma entrevista política na SIC Notícias vendida à audiência como uma reportagem sobre a vida pessoal do Primeiro-Ministro. O mesmo sucedeu com Luís Filipe Menezes. Apesar de se poder entender estes actos como puro marketing, eles revelam uma faceta essencial da política dos nossos dias. A ideia foi substituída pela imagem. O importante é a emoção que se gera, não a razão do que se diz. É por isso que, paradoxalmente, as mesmas sociedades que consomem estes produtos se queixam do vazio da política. Esquecem-se que, porventura, esse vazio tem precisamente origem na forma como tomam a decisão eleitoral. A luta política que vale a pena é pois a de convencer as pessoas de que a revolução hoje não está nas armas nem na rua mas na mudança do critério de decisão eleitoral. Bem sei: não é fácil. Mas também sei que água mole em pedra dura às vezes fura.
(publicado na edição de hoje do Democracia Liberal)

terça-feira, março 04, 2008

(2366) O PODER CAIU NA RUA?

Correia de Campos caiu na rua à porta das urgências encerradas. Maria de Lurdes Rodrigues não se sente lá muito bem. Os professores, quedos e mudos há anos perante as desgraças do sistema de ensino, saíram à rua porque não querem ser avaliados. O PS, partido formal, institucional, firme, rigoroso, com pose de fato e gravata de semana e Armani ao fim de semana, vai descer à rua, respondendo com um comício de camionetas à rua das urgências e dos professores. O poder voltou à rua? Vejam lá se a malta toda volta a entusiasmar-se.

(2365) E VÃO-ME PERGUNTAR ALGUMA COISA?

"Quem quer ter ilhas, paga-as", disse o inenarrável Jaime Ramos da Madeira. Eu só quero saber se me vão perguntar alguma coisa ou se deram por adquirido que eu quero ter ilhas ...

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

(2336) O ESTADO DA NAÇÃO (1): A CRISE

Muitos milhões de euros de fundos comunitários depois de 1986, Portugal continua com índices vergonhosos de pobreza adulta e de pobreza infantil. Continua com um défice de produtividade das suas empresas que compromete a competitividade e a empregabilidade da economia. Continua com uma população jovem deficientemente preparada pelas escolas para enfrentar o mundo real.

Esta semana vimos um alto responsável universitário contestar que os cursos superiores sejam avaliados pela sua empregabilidade, alegando até que há cursos muito bons que têm pouca empregabilidade. Esquecendo que vive num país com recursos escassos que tem de definir prioridades.

A chamada crise social tem sido disfarçada à custa do assistencialismo público e do meritório esforço de uma miríade de instituições de solidariedade social. Portugal continua um país pobre, porque não teve sucesso na maior riqueza que tem: as pessoas. Sem riquezas naturais como ouro ou petróleo, sem colónias, resta enfrentarmo-nos a nós próprios.

Mas não é fácil vermo-nos ao espelho. A imagem não é boa nem bonita. Como sociedade fraca que somos estamos sempre à espera que o Estado ou alguém por nós resolva o que depende em primeira instância de nós próprios. Não queremos trabalhar mais e não admitimos ganhar menos. Culpamos sempre os outros, o célebre “eles” dos males do mundo.

É importante dizer a bem da verdade que existe uma parte da pobreza que não o é. Há quem prefira os subsídios da segurança social e os biscates ocasionais ao trabalho efectivo. Temos engenheiros, professores universitários e pessoas altamente formadas e preparadas de nacionalidade russa e ucraniana a trabalhar como jardineiros, por exemplo, porque não há portugueses que estejam dispostos a sujar as unhas. Há muitos à procura de emprego e poucos dispostos a ter trabalho. O Estado alimenta esta preguiça parasitária chamando-lhe “políticas sociais”.

Esta situação exige novas ideias e o abandono de preconceitos ideológicos politicamente correctos.

Não é isso que está a acontecer. O país continua adiado, com as instituições públicas atoladas em dívidas, a começar no Estado e a acabar nas autarquias. Dívidas que vão disfarçando com novas dívidas e não resolvendo com os necessários cortes na despesa. As eleições comprometem a verdade. Ganham-se com dinheiro e não com poupança. O Governo já começou a recuar nalgumas tímidas reformas que tentou encetar. Na saúde, na educação, na suave dilatação da despesa. Reproduzindo o modelo que nos conduziu à situação presente.

A SEDES, histórico alfobre da elite de governantes do bloco central, com sucessivas responsabilidades governativas, veio dizer o que todos sentem. O que espanta é ter sido considerado uma novidade o alerta sobre a crise social do país. E a ausência de autocrítica. Mas é assim Portugal. Os mesmos sempre a dizer o mesmo dos mesmos. Talvez por isso o povo, cansado da fatalidade, responda com perigosa e crescente indiferença aos alertas, às críticas e aos problemas.
(publicado na edição de hoje do Diário de Aveiro)

sábado, janeiro 26, 2008

(2120) MEMÓRIAS (III)

""Manuel Maria Carrilho não se deixou intimidar pela onda de violentas críticas a propósito do seu livro «Sob o Signo da Verdade», lançado a 11 de Maio. Consciente da manifesta incapacidade dos jornalistas discutirem os seus próprios problemas, o deputado do PS elevou o debate e avançou com duas ideias: a declaração de conflito de interesses dos jornalistas e o código de conduta das agências de comunicação. As propostas vão ser apresentadas num encontro com estudantes de Comunicação Social, na Escola Superior de Tecnologia de Abrantes, terça-feira, 6. É evidente que o deputado socialista está a jogar a sua sobrevivência política à custa da promoção de um debate sobre a imprensa. Mas confundir o discurso despeitado e o direito à crítica tem um risco: transformar Carrilho em herói da liberdade de imprensa. Quanto mais se varrer para debaixo do tapete os podres da informação, mais o politico Carrilho ganha protagonismo à custa de uma causa que nunca o interessou. As propostas de Manuel Maria Carrilho podem ser criticadas. Até podem não ser suficientes para alterar o Estatuto do Jornalista. Mas os profissionais da comunicação social não podem confundir a árvore com a floresta."

(2119) MEMÓRIA (II)

"As relações entre as agências de comunicação, a política e a comunicação social têm estado na berra. Na passada segunda-feira o Público fez um execelente trabalho sobre este mundo que o país viu começar a ser desvendado por Manuel Maria Carrilho. Respigo desse trabalho este excerto: "Para Salvador da Cunha, dono da Lift (grupo Bairro Alto), as técnicas usadas para assessorar na política são as mesmas que numa empresa: trabalhar a definição da mensagem e dos públicos. "É preciso estruturar as promessas, o discurso e as ideias do político", diz." Por aqui se vê o que as agências pensam do seu trabalho na política. Nomes alugam-se... eles tratam do resto."

(2118) MEMÓRIA (I)

A "guerra da agência" actualmente em curso no PSD, traz à memória a questão levantada por Manuel Maria Carrilho depois das eleições autárquicas de Lisboa. E que, na altura, muito boa gente, sobrepondo antipatias pessoais à relevância do problema, preferiu não discutir abertamente.

domingo, janeiro 06, 2008

(1988) UM PAÍS, DOIS SISTEMAS

3 milhões de carros fantasmas. Uns centos de milhar de eleitores fantasmas. Um terço do PIB de economia paralela. Um terço de criminalidade fantasma não denunciada. Um país, dois sistemas. Francamente, da maneira que isto anda não sei em que país se viverá melhor, se no Portugal oficial, se no Portugal fantasma.

sexta-feira, janeiro 04, 2008

(1973) À FORÇA

Um dos temas que mais tem excitado os comentadores é a possibilidade de José Sócrates fazer ou não uma remodelação do Governo. Apontam candidatos a sair, dizem como Sócrates deve fazer, eles falam , falam, falam… e o Governo continua na mesma. E cheira-me que continuará na mesma.

Desde já convém notar que as remodelações dos Governos não passam de exercícios psicológicos de criação de efeitos especiais. Em última instância é o Primeiro-Ministro que é responsável pelo programa, pelas políticas e pelos membros da sua equipa.

Remodelar é disfarçar. Os Primeiros-Ministros costumam usar essa arma para salvar a pele e não para mudar o essencial.

Depois as remodelações dependem do feitio de cada um. Os jornalistas deliciam-se com a expectativa das remodelações. Dá para falar da intriga política dos corredores e dos bastidores, dá para tocar música, quase discos pedidos, para ilustrar a dança dos nomes, dá para escrever longos textos sobre os ministros que se acha que devem sair e os que se palpitam que podem entrar.

Evidentemente que ao cidadão comum esta conversa de remodelação para cá e para lá, diz pouco. Ou nada.

Mas, no caso vertente, impõe-se alguma memória. José Sócrates, que logo no início do seu mandato fez questão de mandar os portugueses “habituarem-se”, já teve de fazer várias remodelações. Campos e Cunha, lembram-se? Freitas do Amaral, lembram-se? Foram remodelações que ocorreram no Governo. Não foram desejadas pelo Primeiro-Ministro.

José Sócrates tem remodelado o Governo à força das circunstâncias. Ele está convencido e porventura bem que o país aprecia o género de político que se está nas tintas, em português vernáculo, para os comentadores e para os jornais e por isso aparenta estar determinado a seguir o seu caminho imperturbável e impassível para chegar às eleições com uma aura de firmeza, mão forte e carisma, que manifestamente tem de ir buscar aos factos já que de natureza não o tem.

A questão, para os eleitores, e a que verdadeiramente interessa é saber se querem ou não remodelar o Primeiro-Ministro nas próximas eleições. E para saber isso, os eleitores vão olhar para o lado e ver o friso das alternativas.

Quanto ao mais, desiludam-se: Sócrates só remodela à força. À força das circunstâncias. O melhor é analisarem as circunstâncias e não Sócrates.
(publicado na edição de hoje do Diário de Aveiro)

(1972) ESTÁ A DOER

O regresso à Terra de José Sócrates está a doer. Apesar da mitomania da mensagem de Natal, o Primeiro-Ministro deve estar agora a concluir que o povo não partilha das suas façanhas eurocráticas, nem está disposto a verter uma lágrima, como José Sócrates verteu, pelo notariado exercido na assinatura do Tratado de Lisboa. É caso para dizer, diz-me com o que te emocionas, dir-te-ei quem és.

O povo é mais comezinho. A fumar ao frio e à chuva, com urgências a fechar, mais desemprego, preços a aumentar e o empobrecimento geral a toldar os espíritos mais optimistas, veio juntar-se agora a recomendação de Ferro Rodrigues: “menos arrogância”. Duvido que alguém no PS oiça a recomendação, apesar de modesta (“menos”, ou seja, para Ferro é admissível alguma arrogância, mas não em excesso). O PS está fascinado. E o país, desmoralizado.
(publicado na edição de hoje do Democracia Liberal)

sexta-feira, dezembro 28, 2007

(1933) FELICIDADE NACIONAL

É de bom tom fazer balanços quando se aproxima o fim do ano. Este ano é relativamente fácil proceder ao exercício. E que bem sabe escrever para dizer bem. Passamos os dias a criticar, a zurzir, a lamentar, a crucificar as desditas do destino, por vezes julgávamos até que a divina imprudência nos tinha reservado uma safra dos piores para tratar dos nossos assuntos. Até que chega o dia. O tão esperado e ansiado dia em que podemos escrever bem.

Em 2007 o desemprego baixou. Sim, não se admirem. José Sócrates prometeu e cumpriu. Cada vez menos portugueses precisam de receber subsídio de desemprego. Cada vez mais portugueses trabalham, contribuindo para aumentar a produtividade e a riqueza nacional. É por isso que os portugueses andaram mais contentes, contagiando o clima social do país.

Em 2007 foi possível baixar os impostos, aumentando o rendimento disponível das famílias e das empresas, libertando recursos para o consumo, o que pressiona a produção de bens e serviços e para o investimento, o que tem permitido aumentar postos de trabalho e as exportações. José Sócrates, que prometeu não aumentar os impostos, excedeu-se e até os baixou! Como deve estar feliz por ter desrespeitado uma promessa eleitoral para mais e não para menos.

As empresas diminuíram os custos com a burocracia e podem hoje decidir e agir mais rápido, em função da economia e não em dependência da administração. Para fazer grandes negócios e escolher administradores já não é preciso esperar pela opinião do ministro das Finanças, nem pela indicação do gabinete do Primeiro-Ministro.

Os trabalhadores, salvo algumas ovelhas ranhosas, as do costume, decidiram trabalhar mais e produzir melhor para contribuírem para o esforço nacional de recuperação da economia, tendo finalmente percebido que só é possível distribuir mais riqueza se se produzir mais.

Em 2007 o Estado reduziu a despesa corrente, extinguiu serviços inúteis, aumentou a eficácia dos serviços úteis, como por exemplo nas áreas da Justiça e da segurança. Reduziu-se o tempo de espera dos processos em tribunal, investiga-se a criminalidade mais rápido, diminuíram os homicídios, os gangs e as máquinas multibanco dormem mais seguras durante a noite.

Em 2007 as autarquias deram o exemplo, gastando menos, reduzindo as suas dívidas, extinguindo empregos políticos e extinguindo empresas municipais.

Em 2007 os políticos honraram as promessas feitas nas campanhas eleitorais. O PS vai propor o referendo ao Tratado de Lisboa, o PSD continua fiel à promessa de realizar o referendo, e ambos os partidos decidiram empreender um programa de despartidarização da administração pública e das empresas do Estado. Pela primeira vez na história o Presidente da Caixa de Depósitos não tem partido e nenhum dos seus administradores é filiado em nenhum partido. Até no CDS se abandonaram as golpalhadas. Paulo Portas foi leal aos princípios e aos mandatos e aguarda democrática, civilizada e educadamente o fim do mandato de Ribeiro e Castro para se candidatar outra vez. Sem agressões, gritos, empurrões.

O Governo deu o exemplo, deixando o mercado funcionar e foi possível assistir a OPA’s vitoriosas sobre a PT, por exemplo.

Na Educação, o balanço é extraordinário. Os alunos falam e escrevem melhor o português, já não é preciso o célebre despacho da ministra a permitir passagens administrativas para garantir as estatísticas do sucesso.

O que se passou no país este ano teve, aliás, total correspondência em Aveiro. Resolveram-se problemas, saldaram-se dívidas, todos estão de parabéns. A notícia de que Élio Maia terá anunciado na sessão de ontem da Assembleia Municipal que a dívida da Câmara a curto prazo aumentou 6,4 milhões de euros não passa seguramente de uma brincadeira de Carnaval, que, como todos sabem, vem logo a seguir ao Natal. Sentido de humor não falta, felizmente, ao Presidente da Câmara. As 29 medidas anunciadas em Junho para resolver o problema financeiro da Câmara foram de uma eficácia notável. Talvez por isso, estão na forja mais 29. A este ritmo, ninguém pára Aveiro.

É assim, com gosto e prazer que escrevo este último artigo do ano para o Diário de Aveiro. Compreenderão certamente os leitores que este ano já não é necessário desejar um próspero Ano Novo a ninguém. Ele será próspero. Como é evidente.
(publicado na edição de hoje do Diário de Aveiro)

sexta-feira, dezembro 14, 2007

(1859) DEMOCRACIA AMORDAÇADA

Os partidos instalados com alvará no Orçamento do Estado, com licença da entidade reguladora do sistema, aprovaram uma lei que diz que para um partido existir tem de ter pelo menos 5.000 inscritos. Obesos de tantos negócios, resta-lhes a sobremesa de proibir a concorrência fora do prato de lentilhas onde se empanturram.

São miniaturas de Chavez, disfarçados de democratas. Aquele corta a licença às televisões e o papel aos jornais. Estes, que dominam já as televisões com licença, querem cortar o pio a quem pode chamar os bois pelos nomes. Bem os compreendo.

Através de um Tribunal Constitucional anacrónico e ao serviço de uma espécie de estalinismo legal, os partidos do Orçamento tratam de vidinha. Os partidos do Orçamento violam as leis que eles próprios produzem, mas querem obrigar os que não fazem as leis a cumpri-las.

(publicado na edição de hoje do Democracia Liberal)

quarta-feira, setembro 26, 2007

(1677) A DESPOLÍTICA

É verdadeiramente repugnante fazer política com um discurso onde se introduzem subtilmente características físicas supostamente desvantajosas dos adversários. Não é a primeira vez que sucede na política portuguesa. Mas quem o faz paga caro. E é justo que o pague. É indigesto.

quarta-feira, setembro 19, 2007

(1642) IMPRUDÊNCIAS

O presidente do PS da Madeira, João Carlos Gouveia, disse hoje que o regime político na Madeira poderá mudar se houver actuação dos órgãos policiais e judiciais. Este socialista parece revelar-se um pouco imprudente. É que há quem pense que no continente também.

sexta-feira, setembro 07, 2007

(1565) UM AGOSTO CHEIO DE MÁS NOTÍCIAS

O mês de Agosto, habitualmente tido como o mês em que não acontece nada, revelou-se este ano pródigo em acontecimentos cuja gravidade não pode fenecer com as rentrées partidárias, com o renascimento da agenda da Presidência portuguesa ou do quotidiano parlamentar. Sublinho três: o maior ataque à propriedade privada desde as ocupações selvagens do gonçalvismo, a protecção de Cavaco Silva ao Estado injusto perante os cidadãos indefesos e o primeiro caso conhecido de financiamento partidário ilícito.

Em Silves um bando de energúmenos deu cabo da vida a um agricultor que vive do que planta, milho transgénico, coisa que faz no escrupuloso cumprimento da Lei. Destruíram-lhe a plantação e agrediram-no. Um enxerto gonçalvista no século XXI. Um crime praticado a céu aberto. A GNR esteve lá. Perante o flagrante delito, não actuou como manda a Lei, detendo os criminosos. Este comportamento contemporizador do Estado veio evidenciar outra realidade, também ela grave: o Estado não trata a violência toda da mesma maneira. O Estado investiga e detém cidadãos alegadamente envolvidos em actividades de extrema-direita, mas fica-se quando se trata da extrema-esquerda. O Estado não protege, como é sua estrita obrigação o direito de propriedade dos cidadãos cumpridores. O Estado é uma vergonha.

Calha bem abordar agora, na sequência desta iniquidade policial, a segunda má notícia de Agosto: o veto presidencial à Lei que aprovou o novo regime da responsabilidade extra-contratual do Estado. Essencialmente, esta lei tem como função proteger o cidadão dos arbítrios e dos erros cometidos pelo Estado no exercício da sua actividade, garantindo aos cidadãos a reparação dos prejuízos que sofram em consequência desses arbítrios e desses erros. Uma das consequências desta lei, caso entrasse em vigor, seria o aumento das reclamações e da legitimidade dos cidadãos para pedir indemnizações ao Estado ou entidades públicas. O Presidente alega que a nova Lei teria enormes consequências financeiras para o Estado e na sobrecarga dos tribunais com eventuais processos.
Esta Lei seria de facto perigosíssima para o Estado. Obrigá-lo-ia a agir com cuidado e rigor, coisa como se sabe difícil de suceder. Pelo que, a seguir viria outra consequência sinistra: o Estado teria de pagar muito dinheiro aos cidadãos pelos males causados. Obviamente inaceitável, para quem acha que o Estado não somos nós, mas sim uma entidade superior e abstracta que deve gozar do privilégio do erro. Para um social-democrata estatista como Cavaco Silva, esta Lei é um absurdo. A sacrossanta estabilidade orçamental vale obviamente mais do que a garantia dos direitos dos cidadãos. No fundo, o cidadão é visto como uma ameaça ao Estado, numa total subversão dos valores. O Estado existe para servir e não para prejudicar os cidadãos.

Por último, o caso da Somague. Em tempo recorde, que contrasta flagrantemente com atitude bem diferente noutros casos, o Ministério Público já concluiu não existirem indícios de crime no caso do financiamento ilícito do PSD pela Somague. Tratar-se-á assim de uma ilegalidade, embora não de um crime. Saindo da Justiça para a política o que sobra? Um imensa descrédito da política. A sensação é que vale tudo. E, claro, ninguém no PSD sabia. Claro que não.
(publicado na edição de hoje do Diário de Aveiro)

quinta-feira, setembro 06, 2007

(1562) DE MAL A PIOR

Luís Filipe Meneses anda num jacto pago por um empresário com interesses económicos no concelho em que o mesmo Luís Filipe Meneses é Presidente de Camara. Não é nada sadio. O principal factor de descrédito da política é a suspeita. É que à mulher de César não basta ser séria. É preciso parecê-lo. O problema é que os políticos do sistema bastam-se com a auto-proclamação de que são sérios. Esquecem-se que o que é necessário na política é justamente sê-lo e parecê-lo. O que fundamenta uma condenação nos tribunais é a prova. Na política basta a mera suspeita para minar a credibilidade.

quarta-feira, agosto 29, 2007

(1512) SAZONALIDADES

A vindima. A apanha do tomate. O turismo algarvio. Os vetos de Cavaco Silva.

segunda-feira, agosto 20, 2007

(1445) ASSIM VAI A DITA OPOSIÇÃO

Assim se vê a alternativa. Por causa desta notícia relativa ao ano politico-parlamentar que passou. Nada de novo, ou seja, PS descansado.

sexta-feira, julho 27, 2007

(1401) PREPARAR 2009

Vêm aí eleições. São as legislativas de 2009. Na entrevista desta semana à SIC o Primeiro-Ministro deu o tiro de partida para a campanha eleitoral de 2009 ao anunciar que a grande novidade do Orçamento para 2008 será o aumento do investimento público. Com o país já em férias, mergulhado em dificuldades, o PS optou por jogar pelo seguro e mudar de azimute.

José Sócrates acredita que o país real lhe perdoará tudo: a incompetência de alguns dos seus ministros, as trapalhadas da engenharia, as cartas de Manuel Alegre, as vaias, as entradas pelas traseiras, os processos disciplinares, a perigosa obsessão com a concentração de poderes que vão dos serviços de informações à criação de fundações. E que esse país, que zurze nas costas mas quer sossego, na hora certa lhe renovará a maioria absoluta.

Não basta ao PS o estado comatoso da direita geométrica, intimamente convertida ao estilo autoritário e ideologicamente descontente pela esquerda do PS com as políticas do Governo. É preciso cilindrar.

Ora, este anúncio é a melhor demonstração como só na aparência o país está a ser governado como deve ser no domínio das políticas substantivas. Na hora do aperto Sócrates mostra a sua natureza socialista e lança mão da solução tantas vezes experimentada e tantas vezes falhada de resolver os problemas da economia: o investimento público.

No fundo a receita é sempre a mesma: “falem os jornais o que falarem lá estarei eu para inaugurar os chafarizes e cortar fitas” (sem ofensa aos meus amigos do blogue com o mesmo nome). Seja o PSD seja o PS seja o CDS que estejam no Governo, a receita tem sido sempre aplicada. Aumento de impostos primeiro, aumento do investimento público depois, segundo a ilusão de que o Estado é que manda na economia.

Ora, sucede que, como tenho defendido, nada do que tem sido feito tem a ver com a solução estrutural dos problemas, mas apenas com a maquilhagem desses problemas. Sócrates não quer resolver a crise do modelo social, quer apenas resolver o problema de tesouraria do modelo social. A isto chama-se apenas adiar o inevitável.

Como sempre, quem vier atrás que feche a porta.

O problema é que a falta de alternativa visível parece reforçar aos olhos os eleitores uma espécie de necessidade de manter Sócrates no poder. À direita neste momento, o melhor mesmo é esperar que alguém decida fazer a rodagem do seu carro novo.
(publicado na edição de hoje do Semanário)

quinta-feira, julho 26, 2007

(1395) UM PAÍS, DOIS SISTEMAS

Portugal decidiu copiar a China. Este país, como sabemos, ainda se diz comunista mas convive amável e cumplicemente com o capitalismo, que procura e deseja, para desenvolver a sua economia. Em Hong Kong e em Macau, ninguém sabe do comunismo. É o conhecido método “um país, dois sistemas”.

Cá, vivemos hoje no mesmo no regime. Há o país da rua, do desemprego, da escola, e há o país de Sócrates. No primeiro existe pessimismo e dificuldades. No segundo só existem maravilhas, para lá, é claro, do sucesso no combate às cáries dentárias, que é o orgulho do Primeiro-Ministro.

"Saímos daqui com vontade de comprar uma casa." Foi desta forma que o Primeiro-Ministro se referiu às vantagens do "Casa Pronta", o novo balcão único onde se pode tratar dos vários procedimentos inerentes à compra e venda de casa, como a assinatura da escritura pública ou pedir a caderneta predial. Pois será. O problema no tal país que Sócrates ignora do alto das cataratas de propaganda onde se atola, mas que existe, não é falta de vontade para comprar casa. É a falta de dinheiro.
(publicado na edição de hoje do Democracia Liberal)