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sexta-feira, abril 11, 2008

(2589) "BRUTUS DIXIT"

Vítor Constâncio, considera que o Governo deve ter uma visão “mais realista” sobre o crescimento da economia portuguesa, contestando a posição do primeiro-ministro que considerou “excessivamente pessimista” a previsão do Fundo Monetário Internacional (FMI) de que Portugal apenas crescerá 1,3 por cento em 2008. Até tu, Brutus? Na verdade, quando até Vítor Constâncio, até há bem poucos dias tão optimista quanto o Governo sobre o crescimento da economia portuguesa, vem agora recomendar frigorífico à sopa escaldante da propaganda, então é caso para dizer: cidadãos, preparem-se para os dias difíceis que estão para vir.

quarta-feira, abril 09, 2008

(2572) FINALMENTE!

Eu já desesperava. Não gosto de estar sempre em desacordo. Por isso, hoje fiquei feliz: finalmente concordo com o Governo. Teixeira dos Santos, considerou hoje as previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI) de "demasiado pessimistas". Absolutamente de acordo. Também penso que ao FMI teria bastado ser pessimista para ser verdadeiro. Não era necessário ser demasiado pessimista. O problema é que à boleia desta concordância é Teixeira dos Santos que entra em discordância com o seu próprio Governo, que pela voz autorizadíssima do seu Primeiro-Ministro, tem declarado um optimismo ainda que moderado.

(2567) MÁS NOTÍCIAS

O FMI reviu em baixa as previsão de crescimento da economia portuguesa para 2008. Depois de Vítor Constâncio ter dito que o crescimento da economia portuguesa poderia ficar acima da zona euro, o FMI veio "corrigir" a propaganda interna. Bem sei que ambos, FMI e Constâncio, podem estar certos. Mas meter a cabeça na areia como tem feito o Governo, não ajuda. É que em ambos os casos estamos a falar de variações de décimas, muito longe do que o país precisa.

sexta-feira, março 28, 2008

(2500) O DEPUTADO GONÇALVISTA

"Paulo Portas frisou que os preços de vários bens de consumo subiram no último ano muito acima da inflação e do custo das matéria-primas e defendeu que a Autoridade da Concorrência devia investigar para apurar eventuais irregularidades.". Ora aí está um discurso digno de um ministro de Vasco Gonçalves. Ainda me recordo, em 1975, das invectivas da 5ª Divisão do MFA sobre a especulação comercial, e das retóricas do Governo do "camarada" Vasco sobre a especulação nos preços. Finalmente descobri como é que se pode obrigar a economia de mercado a mexer nos preços sempre que os impostos variam: é porem o deputado gonçalvista à frente da Autoridade da Concorrência. Apenas com uma limitação: não o deixarem pôr as mãos em concursos públicos de submarinos, helicópteros e armamento em geral.

(2499) ECONOMIA POR DECRETO

Por outras palavras José Sócrates copiou Santana Lopes, quando anunciou esta semana o fim da crise. Isto é, quando anunciou esta semana que a batalha do controlo do défice está ganha. E copiou Santana Lopes quando anunciou de imediato uma descida dos impostos, concretamente do IVA. Alguns dias antes o mesmíssimo Sócrates tinha qualificado de leviandade defender uma baixa dos impostos.

Convém recordar a sequência. Na campanha eleitoral Sócrates prometeu não aumentar os impostos. Depois de ganhar as eleições fez precisamente o contrário e, entre outros, aumentou o IVA de 19 para 21%. Agora considerava leviano descê-los. Nem quinze dias depois de o ter dito anunciou a descida do IVA de 21 para 20% a partir de Julho, mesmo a tempo das férias.

Para os que defendem que há impostos a mais em Portugal uma descida curta e parca que seja, dos impostos é sempre boa notícia. O problema está em que sempre que o Governo anuncia uma descida de impostos logo todos esperam que a economia reaja em conformidade na mesma hora e os preços baixem por decreto. Puro engano.

A racionalidade económica e empresarial não é sensível aos decretos. Sobretudo quando os decretos são batoteiros. Se a crise orçamental passou o IVA devia baixar para 19 e não para 20%. Só assim estava resposta a situação que Sócrates prometeu não alterar. Mas o que se passa é que o Primeiro-Ministro vai guardar o 1% que falta para mais pertinho das eleições e usar os impostos para ganhar eleições, como fez Zapatero em Espanha e, mais uma vez, ao contrário do que prometeu fazer.

Evidentemente que a economia é mais complicada que os decretos do gabinete e não reflectirá no imediato esta benesse fiscal. O aumento dos custos de produção nos últimos meses, sobretudo dos combustíveis, tenderão a engolir esta diminuição do IVA.

Quando inexplicavelmente o Governo baixou o IVA para os ginásios e os preços nem mexeram, teve a sua primeira lição de economia. Agora terá a segunda. Evidentemente que, do ponto de vista político e eleitoral, o discurso está feito. Os preços não baixam por culpa dos malandros dos empresários, já que o Governo até ajudou baixando o IVA. Mas o Governo sabe muito bem que nestes casos, está historicamente demonstrado que os preços não descem.

A economia não se muda por decreto.

(publicado na edição de hoje do Semanário)

quinta-feira, março 20, 2008

(2458) O OÁSIS

Reina o maior silêncio dos responsáveis políticos portugueses sobre a crise financeira mundial, que teve o seu epicentro no crédito hipotecário norte-americano.

Sócrates não quer falar de dificuldades, já que no horizonte tem umas eleições legislativas para ganhar e sabe de antemão que o eleitorado não gosta de más notícias. Já lhe basta ter de justificar avanços e recuos consoante a rua lhe dita.

Cavaco Silva, economista gabado, político consabidamente prudente e com aquele sentido de equilíbrio, convergência, cooperação ou assessoria institucional, consoante os casos, que o caracteriza, guarda de Conrado o prudente silêncio.

A oposição, entretida com quotas e com o fundo azul, o PSD e investigações criminais, o CDS, não diz uma palavra, não exige um esclarecimento, não propõe uma medida para nos prepararmos para o impacto da crise.

Os investidores, preocupados, regressam ao ouro, o eterno ouro, que assim vê também os seus preços subirem face ao aumento da procura. A moeda perde a confiança do mercado, debilitando-se como meio de riqueza. O que é paradoxal, face à inaudita valorização do euro face ao dólar.

As notícias, essas desmancha-prazeres, é que não páram. O petróleo a subir desmesuradamente, o euro sempre a galgar o dólar, as imobiliárias sem trabalho (só em Espanha o ano passado metade delas fecharam), o custo do dinheiro a aumentar (o que será dos bancos no dia em que tiverem nas mãos milhares de casas para vender devido ao incumprimento dos empréstimos? E a quem venderão?).

Isto tem um nome: crise. A palavra proibida. Uma crise que, talvez pela sua origem, afinal de contas parece ter começado no longínquo Ohio, onde, pasme-se!, não há só primárias para a Casa Branca, mas também economia, parece estar longe e não nos afectar. É talvez essa a ilusão dos grandiloquentes políticos domésticos.

Esta semana chegou o atestado de veracidade da crise que faltava. Aquela de que ninguém falava, foi finalmente reconhecida e falada. "A actual crise financeira nos Estados Unidos vai ser verdadeiramente considerada como a mais grave desde o fim da Segunda Guerra Mundial". A frase é de Alan Greenspan, que esteve à frente da Reserva Federal americana de 1987 a 2006.

As declarações de Greenspan geraram compreensivelmente inúmeras reacções políticas um pouco por todo o lado, incluindo na União Europeia. Excepto em Portugal. Por cá, faz-se de conta que a crise não existe. Apesar da magreza dos indicadores económicos, o discurso oficial do Governo é fazer de conta que estamos imunes à crise e no caminho certo. Entretanto, o Governo prepara-se para montar grandes operações financeiras necessárias à construção do novo aeroporto e do TGV. Se a crise durar, é legítimo perguntar qual o impacto que ela terá nesses investimentos. Mas também sobre isso, o Governo, nada diz. Os Governos, afinal, não se fizeram para grandes trabalheiras.

(publicado na edição de hoje do Semanário)

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

(2292) "COUVERT", IVA E OUTRAS EMOÇÕES

Parece que alguém descobriu que quem comer entradas, vulgo "couvert", em qualquer restaurante sem as ter pedido para a mesa, não tem de as pagar. Esta ideia que se dão coisas na economia exerce uma atracção. Fatal, mas atracção. A ilusão de que alguém trabalha de borla, ou que faz preços por decreto governamental, só mesmo na defunta URSS e foi o que se viu. Evidentemente que se esse entendimento vingasse, o que os restaurantes fariam seria aumentar genericamente os preços para cobrir esse novo custo. O Governo, santa ingenuidade, também pensou que baixando o IVA dos ginásios os preços dos ginásios desceriam por obra e graça do Espírito Santo (não é piada). Enganou-se. Agora quer impôr preços administrativos, como se fazia nos tempos do gonçalvismo, uma espécie de castrismo com um Fidel de trazer por casa. A economia, definitivamente, não é socialista. E o Estado legislador devia ser o primeiro a perceber que nem ele próprio "dá" o que quer que seja. sai-nos do pelo a todos. Sendo assim, resta aos consumidores escolher o melhor ginásio ao mais baixo preço. Como se continuará a fazer com os restaurantes, se esta peregrina ideia que se pode comer sem pagar vier a ser imposta por decreto.

quarta-feira, janeiro 09, 2008

(2006) RESULTADOS

Desde a subida de Sócrates ao poder, a economia portuguesa perdeu, em termos líquidos, 19 274 empregos. Estes resultados constam de um artigo publicado no Boletim Económico do Banco de Portugal, ontem divulgado. Mais um desmentido da propaganda do primeiro-Ministro.

quinta-feira, outubro 04, 2007

(1736) O PODER DE ENCAIXE

O ministro Santos Silva, que deve andar surpreendido por ainda não ter ocorrido o golpe de Estado do Dr. Cavaco Silva que profetizou durante a campanha eleitoral para as presidenciais, decidiu sociologizar no Parlamento. Vai daí, tentou explicar que o poder de compra não tem nada a ver com a Economia. Só para justificar uma não ida do Dr. Pinho ao Parlamento, para a maçada de se pronunciar sobre o dito poder de compra. O ministro Santos Silva achará que o poder de compra é um assunto da Psicologia, ou antes do Ilusionismo. Não sei. O ministro Santos Silva tem motorista, ordenado, ajudas de custo, telefone do Estado e pode andar de Falcon em serviço. Compreende-se que não perceba patavina do que é perder poder de compra. O que sei é que os portugueses podem ter perdido poder de compra, mas aumentaram muito o poder de encaixe para aturar estes socialistas.
(publicado na edição de hoje do Democracia Liberal)

sexta-feira, junho 22, 2007

(1177) PIOR PARA O CIDADÃO

(Bijuteria)

Livros, para adultos e para crianças, cd's, canetas, lápis, borrachas, post it's, caixas de cartão, cartões para telemóveis, porta-chaves, fitas para qualquer coisa, produtos de poupança, sacolas, chávenas, canecas, loiças para pôr tremoço, azeitona ou frutos secos, de repente julguei-me numa loja dos trazentos. Foi então que, surpreendido, reparei que estava, afinal, apenas numa estação dos CTT. Imediatamente me ocorreu como seria bom pôr bancos, livrarias, discotecas, lojas de coisas para casa, de souvenirs, a poder fazer distribuição postal. Ou seja, consentir a todos os agentes económicos o que o Estado consente aos CTT. O preço dos serviços postais baixaria certamente e se o serviço não tivesse qualidade facilmente mudaríamos de fornecedor. Foi então que me lembrei que em Portugal existe um monopólio dos serviços postais. Como se vê, os monopólios são sempre injustos e prejudicam os cidadãos, para além de descambarem em concorrencia desleal com outros agentes económicos. Os CTT são hoje um hipermercado monopolista de proximidade. Ah e já agora não se esqueçam de mudar o nome à empresa. CTT Correios de Portugal apenas reflecte um segmento de negócio. Talvez CTT, Lojas de Portugal ficasse mais verdadeiro.

domingo, junho 17, 2007

(1148) O MEDO

(Octopus Vulgaris)

Fala-se de medo nos dias que correm na Pátria. Medo de escrever em blogues, medo de financiar estudos, medo de falar de assuntos quentes na comunicação social, agoara também medo de Directores Regionais de Educação. Funcionam um pouco por todo o lado os mecanismos invisíveis de coacção. De pessoas que escrevem nos blogues, de empresas que financiam estudos contrários às posições do Governo, de jornais que simpaticamente prescindem de jornalistas incómodos, e alguns visíveis como processos disciplinares. Valha a verdade que este fenómeno não é novo. Não é um exclusivo de Sócrates. Já foi assim, apenas porventura com variação da intensidade e do grau, com o PSD e com o CDS no poder.
Especialmente no que toca aos empresários, o medo de se saber que pagaram um simples estudo, que por ironia dos Deuses se vem a saber agora que foi combinado com Sócrates, revela apenas que em Portugal continua a não ser possível a economia funcionar sem o Estado. Quando um empresário que arrisca o seu capital precisa do Estado para ter hipóteses de sucesso, é porque não há mercado a sério, propriedade privada a sério, liberdade económica a sério. E esse é, há séculos, quer se queira quer não, o principal factor do atraso económico e social do país.
Mas há que dizer ainda outras duas coisas. Alguns dos chamados grandes empresários portugueses sempre preferiram acoitar-se no amparo dos dinheiros públicos e do encosto com o poder do que experimentar o negócio a sério. Dá mais trabalho certamente. É ver nomeadamente a pouca vergonha que se passou com as chamadas privatizações, que foram devoluções e não privatizações, com concursos públicos de fachada em muitos casos, com resultado pré-decidido.
Por último: desta situação tanto é responsável a pequenez dos políticos portugueses que têm tido o sortilégio de manobrar o Estado, como as vítimas deles, ou seja os portugueses, e no caso do estudo da CIP os financiadores ocultos, que preferem não se incomodar e denunciar. Como vêem agora, Roma não paga a traidores, mas também não paga a cobardes, esses idiotas inúteis nas mãos do poder (mas aqui para nós, caros empresários, a verdade é que já o sabiam, não é assim?).
Depois de ler o link que antecede, digam-me lá se isto tem salvação...

quinta-feira, maio 17, 2007

(988) O PROBLEMA

"O problema de raiz da economia portuguesa é o baixíssimo nível de produtividade, sobretudo quando comparado com a média europeia: numa hora de trabalho um português produz, em média, apenas 65 por cento do que produz um colega de outro país europeu. Só quando este indicador melhorar de forma assinalável - e ele teima em manter-se virtualmente inalterado nos últimos anos, enquanto discutimos eternamente o problema da "qualificação" e da "competitividade" - é que o país pode ambicionar ser um pouco dono do seu destino, deixando de estar permanentemente à espera de boleias económicas europeias que nem sempre chegam quando precisamos delas."
Paulo Ferreira, no Público

sexta-feira, maio 11, 2007

(951) PARABÉNS A TODOS OS SOCIALISTAS PORTUGUESES

Os socialistas portugueses de todos os partidos, do CDS ao Bloco de Esquerda, estão de parabéns. A Comissão Europeia calcula que o poder de compra dos trabalhadores por conta de outrem em Portugal registou a maior descida dos últimos 22 anos, durante o ano passado. De acordo com o relatório semestral divulgado esta semana, os salários reais portugueses caíram 0,9%. Por outro lado, e apesar disso, as empresas portuguesas continuam a não ganhar competitividade em comparação com a suas congéneres europeias, com as quais se batem nos países da União e nos mercados internacionais.

Portugal vai voltar este ano a ter a pior taxa de crescimento da economia de todos os países da União Europeia. Ao mesmo tempo, o país deverá ser o único membro da zona euro a manter um défice orçamental acima dos 3% do PIB, o limite autorizado pelos polícias financeiros de Bruxelas.

A tentação é zurzir o Governo socialista por estes paupérrimos resultados que farão como de costume sorrir o Primeiro-Ministro, embora não se perceba de que se ri ele. A verdade é que este resultado deve-se à acumulação de décadas de socialismo. Um socialismo despesista, gastador e abusador no Estado e ineficaz e improdutivo na economia.

A pesada factura está muito longe de ser paga e apesar das aparências continuamos no mesmo caminho, ou seja, a caminho do socialismo, como prescreve o preâmbulo da Constituição e cada vez mais pobres como é fatal que aconteça enquanto nos mantivermos na radiosa e prometedora estrada do socialismo.

A verdade é que continuamos a viver num Estado socialista que actua como se fosse a nossa mãe e o nosso pai: protege-nos, alimenta-nos e impõe-nos a escola, o hospital, o tribunal e a segurança social. Por isso as reformas de José Sócrates são uma ilusão, pois as funções do Estado continuam inalteradas.

Acresce que um dos mais perniciosos efeitos deste desvario é o de que continua a não existir liberdade de escolha para os cidadãos. Entre tantas “reformas”, o Governo continua a defender alguns grupos económicos existentes mas esquece-se de dar liberdade aos cidadãos: liberdade de escolher a escola que querem para os seus filhos, de escolher o hospital ou o centro de saúde onde possam ser tratados, o tribunal onde possam apresentar os seus processos, de escolherem para onde descontar o seu dinheiro quando pensam na sua reforma.

A oposição parlamentar não difere. Até o CDS se incomoda com as malfeitorias de pormenor feitas ao socialista Serviço Nacional de Saúde. E, para cúmulo, o PSD não vê melhor do que criar mais ministérios. Agora lembrou-se de um ministério novinho para as pequenas e médias empresas. Como se a despesa fosse pouca, como se não houvessem ministérios demais, como se os problemas da economia se resolvessem com ministros, secretários de Estado, assessores, adjuntos, motoristas, seguranças e secretárias. Se assim fosse, já os problemas da economia do mundo inteiro estariam há muito resolvidos. Como está bem de ver esta ideia brilhante do PSD mais não conseguiria do que angariar colocações a alguns putativos ministros do aparelho laranja.

Na essência, os problemas estão lá. Mais ou menos disfarçados conforme os ventos da economia europeia e mundial vão permitindo. Apenas isso. É pouco. Porque sendo assim, os mesmos problemas voltarão sempre.
(publicado na edição de hoje do Semanário)

sexta-feira, março 23, 2007

(726) O PROBLEMA CONTINUA

O Governo celebrou com a pompa a que já nos habituou, mas com excessiva circunstância o número do défice, os tais 3,9%. O entusiasmo foi tanto, que foi com o número e não com palavras, que o Primeiro-Ministro iniciou o seu discurso no debate mensal. O número, supra-sumo da tecnocracia, inimigo oculto das palavras, esses símbolos de retórica inconsequente, é o meio natural dos tecnocratas. Nada a opôr. Ainda que cumpra recordar a veemência com que o PS dizia que havia mais vida para além do défice, quando outros Governos tentavam fazer o que este anda a fazer.

Ainda bem que o défice baixou. Mas esse facto não nos deve impedir de compreender que o problema de fundo do país continua. E o problema de fundo do país é a economia, é o crescimento, é a produtividade, é, numa palavra, a criação de riqueza. Porque só com crescimento, com produtividade e com criação de riqueza pode haver descida do desemprego, que é causa, não consequência. No tempo em que para o PS as pessoas estavam primeiro e não eram números, como se lia nos cartazes de António Guterres em 1995, havia menos desemprego.

E, se se reconhecer que o problema de fundo do país é este, então tem de se reconhecer que o Governo até agora falhou. A economia não arranca, não cresce, não gera empregos e não revela mais produtividade. É, aliás, por isso, que o Governo ataca o défice pelo lado do aumento de impostos que em campanha eleitoral o primeiro-ministro havia prometido não aumentar. Isto, enquanto a despesa corrente do Estado continua a aumentar, revelando o fracasso da reforma da Administração Pública. Esta reforma só é possível com uma modificação das funções do Estado. Mas essa reforma o PS não quer fazer. Porque é socialista, porque é estatista, porque precisa da máquina do Estado para se perpetuar no poder como os partidos do sistema.

O défice pode continuar a baixar, pode até descer para menos de 3%, mas se os males estruturais do país, se o gigantismo do Estado persistir, se se continuar a entender que é pelos impostos que podemos eternamente resolver os sufocos, então o país jamais sairá da cepa torta. E o Governo tem de perceber, para seu bem, mas sobretudo para bem de todos os portugueses que a boa comunicação tem, como tudo na vida uma utilidade marginal. Quando o discurso oficial se afasta demais da realidade é o discurso que perde.
(publicado na edição de hoje do Semanário)

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

(466) ATRASO ÚNICO

Cavaco Silva, um dos assinantes do Tratado de Maastricht, disse hoje que considera que a moeda única, instituída pelo Tratado, que hoje faz 15 anos, "continua a ser decisiva" para projectar o desenvolvimento de Portugal "para os níveis médios europeus". Tem-se visto.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

(458) UM PAÍS EM FORMA DE ASSIM

Imagine o leitor que é um gestor de primeira linha de uma grande cadeia de distribuição europeia, responsável pelas lojas em Portugal. Imagina-se, porventura, que será distinguido como o gestor desse grupo que melhores margens comerciais e lucros consegue obter no conjunto de países europeus onde o grupo está implantado?

Pense bem: está em Portugal, um país declarado oficialmente de tanga desde 2002. O facto do classificador ter emigrado é a melhor prova da penúria pública. Onde habita um povo que todos os anos tem sido chamado a sacrifícios e mais sacrifícios, em nome da redução de uma despesa, a pública, que não há maneira de ser endireitada. Um país cujo povo, diz-se, está endividado por causa da casa, do carro, do computador, das férias. Um país onde os salários, dizem os sindicalistas que não visitam o seu posto de trabalho há vários lustros, descem em termos reais ano após ano. Onde os trabalhadores são acusados de não produzirem, as empresas de não gerirem, os políticos de se servirem… Pense bem: acha realmente plausível obter o prémio? Por outras palavras: acha possível um povo, num país assim, consumir o suficiente para fazer de si o campeão europeu dos lucros dessa rede de distribuição, vulgo supermercados?

Pois claro, a sua resposta, sensata, lógica e prudente deverá ser um óbvio não!

Engana-se, caro leitor. Teria fortes hipóteses de alcançar o almejado prémio. E não, não é filosofia nem prosápia. É mesmo verdade. Existem redes de distribuição europeias onde os gestores que mais vendem são os que estão em Portugal. E esta realidade não admite duas explicações, mas apenas uma: os portugueses são dos europeus que mais consomem. E, em consequência, dos que mais dinheiro dão a ganhar aos empresários da grande distribuição comercial.

Esta realidade aparentemente contraditória, tem sido objecto de reflexão. Um desses responsáveis avançou uma explicação, num encontro que recentemente manteve com outros empresários e responsáveis políticos da Nova Democracia.

Dizia ele que em Portugal todos os jovens têm um objectivo: serem proprietários aos 30 anos. De casa, de carro, de outros bens duradouros. Que esses jovens não admitem sequer a situação transitória dos arrendamentos. Onde antigamente a propriedade era o culminar de uma vida de trabalho, de progresso na carreira e nos rendimentos, hoje tornou-se um ponto de partida e não um ponto de chegada. Para alcançar essa posição de proprietários precoces, sem uma estrutura de rendimento que o permita verdadeiramente, têm necessariamente de se endividar junto da banca.

Tornam-se então ilusórios proprietários de coisa nenhuma. E é assim que aos 40 anos a classe média, de idade e de rendimento, se vê rodeada de dívidas por todos os lados. Para esse gestor, verdadeiramente surpreendido com os elogios que lhe são dirigidos pelos altos responsáveis do grupo pelos resultados que obtém no nosso mercado de 10 milhões de consumidores (as crianças são cada vez mais consumidores por interpostos pais…) essa geração endividada vinga-se dessa situação que ela própria criou, consumindo, consumindo até não poder mais. Usando para tanto o cartão de crédito como sucedâneo da moeda de circulação corrente e recorrendo, se necessário for, a mais e mais endividamento.

É uma teoria com evidentes pontos de contacto com a realidade. Mas que não augura um futuro sadio para o país. Conceber a vida sem esforço, onde tudo se pode resolver e obter instantaneamente e a crédito, é encomendar um caixão financeiro cheio de cores por fora, mas sinistro por dentro. É um futuro eternamente adiado. Esta situação complexa resulta de muitos e variados factores, muitos deles induzidos pela publicidade, pela programação televisiva dos quinze minutos de fama, pela falta de coragem política para enfrentar a situação e por gerações de promessas de sonhos fáceis que não resistem às primeiras 48 horas de Governo.

Este ciclo tornou-se vicioso, porque alimentado em campanhas eleitorais onde se mente para ter votos. Os portugueses tornaram-se campeões mundiais do desta vez é que é. E assim vai vivendo. Até um dia se fartar.
(publicado no nº 7 da revista Nova Vaga)

sábado, fevereiro 03, 2007

(444) LEMBRAM-SE DELE?

Luís Campos e Cunha, o Sousa Franco de Sócrates, oportunamente arredado dos caminhos da Ota e do TGV, considerou fruto de "dissonância cognitiva" a afirmação célebre de Manuel Pinho na China, que nos pôs os olhos em bico, não por não sabermos que ganhamos mal, mas por ver um ministro da República tentar convencer os chineses a virem cá investir porque aceitamos ser mal pagos. “Não bate a bota com a perdigota, andarmos a falar de salários baixos e ao mesmo tempo de choque tecnológico”. Ora toma! Nem um politicozinho da oposição se lembrou desta.

quarta-feira, janeiro 31, 2007

(416) EM ROMA, SER ROMANO

O incrível ministro da Economia (o cargo será mesmo, mesmo, mesmo necessário?...), está na China. Vai daí decidiu pôr o país todo de olhos em bico. Com o que faz? Infelizmente, não. Com o que diz.